10/12/2007 - 19h59
Sérgio Xavier
A diversidade cultural da humanidade é tão essencial quanto a biodiversidade da terra. Há espécies em extinção e expressões artístico-culturais em extinção... Precisamos conhecer e preservar os recursos culturais do ‘ecossistema’ humano, da mesma forma como devemos cuidar dos recursos naturais.
Assim como a natureza precisa de fluxo equilibrado de nutrientes para garantir a sustentação da vida, é primordial equilibrar o fluxo de bens culturais entre povos. Hoje prevalece o desequilíbrio. No audiovisual, por exemplo, Hollywood domina. Esta semana, apenas dois filmes americanos ("Homem Aranha" e "Piratas do Caribe") ocupam 70% dos cinemas do Brasil!
Arte é comunicação holística. Sintetiza percepções, conhecimentos, inventividade, visão crítica, e desperta impulsos transformadores que movem o mundo. Vencer a mediocridade, requer mais poesia e imaginação no dia a dia. Mas, em mão dupla. Ou melhor, em mãos múltiplas. Indo e vindo em todas as direções.
Em 2006, apresentei esta visão em Nova York, na 49a Conferência da Association of Performing Arts Presenters, no painel International Support Systems for the Arts. A platéia foi receptiva. Muitos americanos não alinham-se com a postura hegemônica dos EUA (hegemonia mercadológica que também massacra muitas culturas do próprio país). Estão abertos para outras artes e modos de vida. Como Mark Nerenhausen, de um grande teatro da Flórida, que prioriza a arte brasileira.
O acesso a novas expressões amplia o universo mental e faz evoluir indivíduos e civilização. A imposição de uma cultura sobre outras é algo altamente empobrecedor. Portanto, o equilíbrio multilateral é inteligente e recomendável.
Logo, precisamos conviver com aparentes contradições. Fortalecer identidades é fundamental para garantir a diversidade. Precisamos, ao mesmo tempo, de tradição e invenção; autenticidade e mestiçagem. De um Ariano Suassuna, resgatando e fortalecendo a genuína cultura brasileira; e do tropicalismo de Gilberto Gil, aberto ao mundo, absorvendo, reinventando e devolvendo novas expressões.
Para desenvolver políticas visando a coexistência do lado 'Chico' e do lado 'Science' da nossa cultura, o MinC criou a Secretaria da Identidade e Diversidade, dirigida por Sérgio Mamberti. É um diferencial do Brasil no cenário internacional.
Ampliar a troca de riquezas simbólicas é uma prioridade planetária. A internet abre possibilidades. Pode quebrar supremacias e valorizar a liberdade, a cooperação e a diversidade. O fluxo multilateral da linguagem humana é tão importante quanto a informação genética de todas as espécies.
Não basta tecnologia. Precisamos de bons conteúdos fluindo por satélites e antenas, ligando pessoas. Com esse pensamento criamos o projeto iTEIA. Um sistema de comunicação digital para interações multilaterais. O site www.intercidadania.net apresenta síntese da idéia.
Na natureza, os canais de comunicação da teia da vida são espontâneos. Na cultura, precisam ser criados para que a arte prevaleça nas relações humanas, apontando novos caminhos para a economia, a política, a sustentabilidade ecológica, a felicidade coletiva. É hora de reduzir o aquecimento e aumentar o 'artecimento' global. Saltar da globalização para uma 'artelização'.
Artigo publicado no Jornal do Brasil em 13/06/2007
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