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30/07/2007 - 10h53

PRESSÁGIO ou O conto que Gabriel García Márquez não escreveu

Homero Fonseca

Reprodução/Continente
Fotografia ilustrativa

Gabriel, antes de ficar grisalho

No dia 11 de agosto de 1967, dois meses e uma semana após publicar Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez preparava-se para falar no Ateneu de Caracas, durante a sessão de encerramento do XIII Congresso Internacional de Literatura Ibero-americana, sobre o tema “O romancista e seus críticos”. Ele já havia publicado antes La Hojarasca (novela, 1955), Ninguém Escreve ao Coronel (romance, 1961), Os Funerais da Mamãe Grande (contos, 1962) e A Má Hora (novela, 1962). Mas o sucesso estava apenas começando então, com o estrepitoso êxito do romance de Macondo.
Segundo relato do seu biógrafo Dasso Saldívar (Viagem à Semente, Record, 2000), ele estava apavorado, com as mãos geladas, esperando ser chamado como quem aguarda a vez de subir ao patíbulo. Chega a hora da conferência. E, então, narra Saldívar: “Em vez da dissertação acadêmica, dessas que tanto agradam aos ouvidos dos críticos e dos professores, contou uma história, simplesmente uma história, rebelando-se contra a solenidade e o academicismo do momento. O começo foi árduo, empedrado, tecendo as palavras com silêncios tão longos que manteve (sic) os ouvintes em total suspense nas cadeiras. Mas pouco a pouco foi armando a história completa (...) e levou uma ovação cerrada pela única coisa que, no fundo, estava interessado em ser: um contador de histórias”. O biógrafo não registra o conteúdo da narrativa.
Mas a revista Sisifo, editada em Montevideu, publicou, em 1969, a íntegra do conto-falado de García Márquez. É a história de uma profecia que se cumpre por si própria, um exemplo literário da teoria do sociólogo norte-americano Robert Merton – as profecias que se auto-realizam. Na narrativa oral, está todo o talento do escritor, como uma polpa concentrada de fruta.
Durante anos, os que leram o artigo da revista ou tomaram conhecimento do fato esperamos o conto de García Márquez. Em vão. Ele jamais publicou a história, em nenhum dos seus cinco livros de contos ou qualquer outro meio. Mas a aproveitou, em 1974, como argumento para desenvolver, em conjunto com o diretor espanhol Luis Alcoriza, o roteiro do filme Presagio, rodado no México e que conquistou as mais importantes láureas do Prêmio Ariel (espécie de Oscar mexicano) da Academia Mexicana de Artes e Ciências Cinematográficas: Melhor Filme (juntamente com outras duas películas), Melhor Diretor, Melhor Atriz Coadjuvante (Anita Blanch), Melhor Argumento Original, Melhor Roteiro, Melhor Fotografia, Melhor Cenário e Melhor Edição, além de um diploma especial para a atriz Cecilia Camacho. Pena que o filme não tenha chegado por aqui, pelo menos que saibamos.
Recentemente, a versão em espanhol da narrativa foi divulgada na Internet, como sendo um exemplo que García Márquez teria dado, para que comparassem com o texto quando fosse escrito. A página da Web indica, ainda, que a fala do escritor no Congresso de Caracas havia sido divulgada também pela revista mexicana Cuentos, sem especificar data.
A seguir transcrevemos o conto-falado de García Márquez, inédito em português, como uma preciosa curiosidade:

Algo muito grave vai acontecer neste povoado

Imaginem um povoado muito pequeno onde há uma velha senhora que tem dois filhos, um de 17 e uma filha de 14. Está servindo-lhes o café da manhã e tem uma expressão de preocupação. Os filhos perguntam o que se passa e ela lhes responde: “Não sei, mas amanheci com o pressentimento de que algo muito grave vai acontecer a nosso povoado”.
O filho vai jogar bilhar e no momento em que vai fazer uma carambola simplíssima, o outro jogador diz-lhe: “Aposto um peso como não consegues”. Todos riem. Ele joga e não a faz. Paga seu peso e todos perguntam o que aconteceu, já que era uma carambola simples. E ele responde: “É verdade, mas é que fiquei preocupado com uma coisa que mãe disse sobre algo que vai acontecer a este povoado”.
Todos riem dele e o que ganhou a aposta, na volta para sua casa, comenta:
– Ganhei este peso de Carlos da forma mais simples, porque ele é um bobo.
– E por que é um bobo?
– Porque não conseguiu fazer uma carambola simplíssima, apoquentado com a idéia de que sua mãe amanheceu hoje com a certeza de que algo grave vai acontecer a este povoado.
E sua mãe lhe disse:
– Não brinques com os pressentimentos dos velhos, porque às vezes eles acontecem...
Uma parente ouve isto e vai comprar carne. Ela diz ao açougueiro: “Dá-me um quilo de carne” e no momento em que ele a está cortando, acrescenta: “Aliás, corte dois quilos, porque andam dizendo que algo grave vai acontecer e é melhor estar preparada”. O açougueiro despacha a freguesa e quando chega outra senhora a comprar um quilo de carne, lhe diz: “É melhor levar dois porque as pessoas chegam dizendo que algo muito grave vai acontecer e estão se preparando e comprando coisas”. Então, a velha responde: “Tenho vários filhos, então me dê quatro quilos”. Leva os quatro quilos e para não estender demais o conto direi que, em meia hora, o açougueiro esgota toda a carne, mata outra vaca, vende toda e vai espalhando o rumor. Chega o momento em que todo mundo no povoado está esperando que algo aconteça. Param as atividades e, às 2 da tarde, faz calor como sempre. Alguém diz:
– Vocês não estão achando que o calor está demais?
– Mas nesse povoado sempre faz calor...
– Sim – diz outro –, mas a essa hora nunca fez tanto calor.
– Ora, às 2 da tarde é quando faz mais calor.
– Sim, mas não tanto calor como agora.
Na praça deserta, pousa de repente um passarinho e corre a notícia:
– Tem um passarinho na praça.
– Mas, senhores, sempre tem passarinhos que pousam.
– Sim, mas nunca a esta hora.
Chega um momento de tal tensão para os habitantes do povoado que todos estão desesperados para se irem mas não têm coragem de fazê-lo.
– Eu, sim, sou muito macho – grita um – e vou m’embora!
Pega seus móveis, seus filhos, seus animais, os joga numa carroça e atravessa a rua principal, onde todos os vêem. Até que todos dizem: “Se este se atreve, nós também nos vamos”. E começam a desmantelar literalmente o povoado. Levam as coisas, os animais, tudo.
Um dos últimos que abandonam o povoado diz: “Que não venha a desgraça a cair sobre o que resta de nossa casa”. E então a incendeia e outros incendeiam também suas casas. Fogem em um tremendo e verdadeiro pânico, como em um êxodo de guerra, e em meio a eles vai a senhora que teve o presságio, clamando: “Eu disse que algo muito grave ia acontecer e disseram que eu estava louca”.

Tradução: Homero Fonseca

Publicado na Continente Multicultural, Nº 23, Novembro de 2002.

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5 comentários

  1. Severino Valeriano comentou:

    Só de mentes geniais e de grande inspiração trazem a baila escritos fantásticos como este do Gabriel Garcia Marquez. Simplesmente maravilhoso!

    Comentário publicado dia 22/04/2008, às 23:31
  2. Mônica Montone comentou:

    E depois dizem que o pensamento não tem poder, Homero, rsrsrs*...... É aquela história: uma mentira contada 1000 vezes vira verdade, rs*

    beijos, querido

    MM

    www.finaflormonicamontone.blogspot.com

    ps: seu blog está muio gostoso de ler

    Comentário publicado dia 02/08/2007, às 15:34
  3. Joana Aquino comentou:

    Que bom ter por perto seus textos, Homero!
    Adorei o site.
    Abraços e lembranças...

    Comentário publicado dia 31/07/2007, às 21:59
  4. lula arraes comentou:

    Amigo Homero,
    muito legal seu site.Uma espécie de diário,de pensar em voz alta e também de reflexão e pensamento críticos,que andam fazendo muita falta nos dias de hoje.

    Comentário publicado dia 31/07/2007, às 11:24
  5. Luanda comentou:

    Isso sim é leitura matinal.

    Comentário publicado dia 31/07/2007, às 11:02
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