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Obras

04/10/2007 - 10h51

Roliúde

Homero Fonseca

Fotografia ilustrativa

Romance, Rio de Janeiro, Editora Record, 2007.
Texto da última capa:
O romance Roliúde, de Homero Fonseca, é um achado literário: trata da vida de um histriônico contador de histórias, que vive de narrar enredos de filmes brasileiros e hollywoodianos, no interior do Nordeste, na década de 40.
Bibiu, o pícaro protagonista, é uma espécie de Ulisses nordestino, um descendente direto da linhagem de Pedro Malasartes e Lazarillo de Tormes, com um pé na caatinga e outro nas salas de cinema da capital.
Enredos de filmes como Casablanca, E o Vento Levou, O Ébrio, No Tempo das Diligências e King Kong, devidamente “traduzidos” para o linguajar dos caminhantes das veredas sertanejas, interpenetram a narrativa das peripécias do personagem central, que vão da rumorosa caçada a extraterrestres na Serra do Mimoso ao involuntário heroísmo na Revolução de 30, passando pela peleja com um corintiano comunista até um atentado praticado por um jagunço a serviço de um coronel corneado.
A originalidade dessa obra reside na imbricação da cultura de massa, globalizada (o cinema, com seus códigos, sua linguagem e a ideologia dos centros produtores) com a cultura popular do Nordeste, adaptando/transformando aqueles códigos, linguagem e valores para uma platéia sertaneja, produzindo, ao mesmo tempo algumas das páginas mais engraçadas (sem perder o tom de crítica mordaz aos poderosos) da literatura brasileira.
A história de Bibiu, clown formado na escola da vida, mistura tons picarescos, cordelísticos e cinematográficos em que sobrevivências arcaicas não são impermeáveis ao novo, como ocorre na literatura popular, onde temas medievais coexistem com notícias da atualidade.

De Caruaru para Hollywood

Fernando Monteiro

Este primeiro romance de Homero Fonseca é, antes do mais, um achado literário com base na força do imaginário do cinema – que os autores contemporâneos ainda refletem pouco, apesar de a tela ser uma onipresença há um século contado da primeira exibição pública (Paris, 1895) de imagens em movimento.
Desde então, a força do cinematographo penetrou a cultura de muitas maneiras, até se ver hoje diluída pela “torneira aberta de imagens” – que era a televisão, para Orson Welles –, mas, tudo bem, o cinema sobrevive, permanece no foco do interesse e, principalmente, se depositou como um recife de coral no fundo das nossas mentes. Foi isso que Homero quis encontrar, na “tela” intermitente do contraponto deste livro que homenageia o cinema e o entronca com a literatura, na forma mais do que adequada da novela picaresca, de tradição ibérica afirmada desde a partida da “Vida do Lazarillo de Tormes”, em 1554, quando essa obra apareceu em Burgos, Alcalá e Amberes.
O “Lazarillo” fundou um gênero baseado no anti-herói que conta, ele mesmo, a sua história cheia de peripécias, fracassos e sucessos mais ou menos irônicos, amplificados por aquele ego que pede a nossa simpatia apenas por existir, num desamparo disfarçado pela coragem de quem se sirve del ingenio (su única arma), y en un abrir y cerrar de ojos pasa de niño inocente a pícaro, segundo Maurice Mocho.
A chave desta saborosa ficção é a imaginação desabrida. Ela está solta desde a primeira página, na voz de um “contador de filmes” que vem se juntar aos mais interessantes personagens da literatura nacional: Severino Ramos Soares da Silva ou, mais simplesmente, Bibiu.
O Bibiu que aqui comparece, com as suas narrações fílmicas e histórias paralelas, é moderno – e internacional – desde logo pela presença do celulóide evocado pela cabeça de cinéfilo do autor em afinação com aquelas películas penetradas no gosto popular, naquele fundo depósito de familiaridade que, no mundo da leitura, havia transformado Jules Verne em “Júlio” Verne, antes de consagrar Chaplin como “Carlitos” e Tom Mix como Tom Mix mesmo (porque o nome era fácil e o chapelão...).
Perdoem o “trocatrilho”, mas neste Roliúde há justamente isso: um mix dos variados tons do picaresco, do cordelístico e do cinematográfico que, afinal, fornece o eixo de que partem, em irradiação, os também hilariantes capítulos, vamos dizer, “biográficos” de Bibiu a contar a sua vida severina. Esse “também” aí, significa que, primeiro, o leitor já terá rido, com gosto, da forma como algumas das produções mais famosas de Hollywood (maciçamente) são reinterpretadas por uma mente livre, cheia de verve clownesca e graça e empatia para com as fraquezas humanas, humaníssimas – que são da nossa psique.
Romance de Bibiu e da sétima arte, Roliúde é tomado pela simpatia que abraça a raça, comungando com ela e tentando desculpar anônimos e famosos – ao dar entrada a todas as gentes, na companhia de Sansão e Dalila, Hitler e Roosevelt, King-Kong e a Dama das Camélias, o “Ébrio” de Vicente Celestino, a Casablanca de Rick e sua dor de corno e uma plêiade (que palavra!) de heróis que dão ar curiosamente pop a esta obra escrita com visível afeição pelo seu personagem, além de paixão autêntica por filmes e a vontade (inconsciente?) de reinventar o picaresco nordestino, visto por uma lente grande angular homérica, semiótica, épico-carnavalizada e tudo mais que Umberto Eco quiser.
Pois conseguiu. Apocalíptico e integrado, Homero Fonseca concebeu e logrou criar um Lazarillo do século do cinema, sem forçar a mão (e o humor) em nenhum momento. (Texto das orelhas)

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Leia o capítulo "A peleja de um nordestino com um corintiano comunista", no site em homenagem a São Paulo: www.debabelparababel.com.br

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Veja trêiler do livro no You Tube:

http://www.youtube.com/watch?v=6OJFaig9134


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6 comentários

  1. André di Bernardi comentou:

    "Homero Fonseca parece que gosta de uma boa prosa e em Roliúde, seu primeiro romance (o livro daria um ótimo filme, diga-se passagem), ele presta uma longa e justa homenagem ao cinema, essa “máquina que fabrica gente, aquela alta ciência”, e abusa de brincar de imaginar, como só sabem fazer as crianças e os artistas."
    "Hollyood é aqui", Estado de Minas, 23/02/2008. (Leia o artigo no Clip.)

    Comentário publicado dia 28/02/2008, às 16:59
  2. Alexandre Bandeira comentou:

    "Ao não fazer concessões a um hipotético leitor médio, Homero dá uma autenticidade a Bibiu difícil de se encontrar em personagens literários."
    "Publique-se a lenda", em Continente Multicultural n.85, janeiro de 2008. (Leia o artigo no Clip)

    Comentário publicado dia 28/02/2008, às 16:27
  3. Xico Sá comentou:

    "A gente lê o livro e fica ali, lesado na rede, tamanha é a prosa afetiva das aventuras deste personagem".
    (Leia artigo "Bibiu é a maior diverão", no Clip)

    Comentário publicado dia 22/12/2007, às 08:43
  4. Luiz Paulo Faccioli comentou:

    "Além de picaresco, aventuroso e cinematográfico, Roliúde é um romance delicioso".
    (Leia o artigo "Bibiu e a sétima arte", do Rascunho, no Clip.)

    Comentário publicado dia 22/12/2007, às 08:42
  5. Marcelo Mário de Melo comentou:

    No romance de Homero não aparecem as marcas chapadas do cangaceirismo, do bucolismo e do passadismo. Ele se situa na atmosfera típica dos interioranos que convivem nos centros das cidades, os pracianos, ou os suburbanos das capitais. Os cenários são a feira, o trem, a bodega, a praia, o cais do porto, a igreja, o fiscal, a polícia, o quartel, o puteiro, a família. As andanças de Bibiu incluem episódios que se desenvolvem no Recife e em São Paulo, onde se torna torcedor do Coríntians e amigo de um comunista que termina preso e desaparecido.
    (Leia artigo "Roliúde de Homero e Bibiu", no Clip.)

    Comentário publicado dia 22/12/2007, às 08:39
  6. Carolina Salcides comentou:

    Olá, Homero!
    Sou Carolina Salcides, a poetisa gaúcha que esteve aí na Bienal.
    Fui embora ontem dia 11, que pena não ficar para o lançamento do seu livro... Foi um prazer conhecê-lo! Parabéns pelo blog e pelo livro.
    Falei com Eduardo Holanda, ele disse que me enviará um exemplar seu, gostaria que mandasse com uma dedicatória, para guardar como lembrança desse dias maravilhosos e culturais que passei aí.
    Divulgar meu livro e meu trabalho tão longe de casa (e estreando ainda por cima) foi emocionante.
    Um grande abraço, Carolina.

    Comentário publicado dia 12/10/2007, às 17:14
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