18/03/2009 - 20h50
Homero Fonseca
Pintura de Lampião, feita por Totonho Laprovítera
Para a professora da Unicamp, Eni Orlandi, o boato é uma arma para a dominação e também para a resistência
Limoeiro do Norte. Contou-se aos quatro ventos que um bandido destemido espalhava o medo por onde passava. Era homem de uma palavra, quando dizia, estava dito, e “ai” de quem desafiasse quem se autodenominou de “Rei do Cangaço”. Personagem controversa, Virgulino Ferreira, o Lampião, era o mote certo de muitos boatos no início do século passado no Nordeste. As informações vinham do seu poder de mira para atirar, à valentia e força para aparar na ponta da faca quem ousasse desafiá-lo. Feito notícia ruim que se espalhava logo, Lampião percorria os boatos, que difundiam o destemor e a grandiosidade do cangaceiro. Verdade ou mentira, essa estratégia de comunicação colaborou para a criação do mito em torno do “herói-bandido”.
Ele foi o homem matador, mas negociador. Truculento, mas que amava as mulheres e preocupava-se com a própria aparência. Nos sertões nordestinos o boato chegava antes de Lampião e, com ele, a idéia de que melhor negócio é não discordar do cangaceiro. Polícia fazia vista grossa e população fechava as portas de casa. O último dos boatos foi se lampião morreu de “morte matada” ou “morte morrida”. Nem a cabeça exposta e fotografada do cangaceiro foi suficiente para exterminar o boato.
Terror de Russas
Outro sujeito periclitante, menos famoso, mas igualmente elevado a mito é o bandido Fernando Soares Pereira, o “Fernando da Gata”, que aterrorizou em Russas, no Vale do Jaguaribe. Nos anos 1960-70, seguiu para São Paulo, onde trabalhou como pedreiro, mas fez assaltos, roubos e estuprou mulheres jovens.
É comum o boato se espalhar em situações de medo, de euforia. Assim são com os terremotos (mesmo quando ocorrem um, os boatos sempre prevêem mais) e com as figuras populares, como Lampião, que muito se beneficiou da notícia não-oficial sem comprovação. Em 2003, quando aconteceu a chacina de Limoeiro, boatos espalharam pânico na cidade de que Chico Orelha – acusado de participar da morte das sete pessoas – mesmo fugindo da Polícia, empreendia toque de recolher na cidade, de que a qualquer momento poderia fazer outra visita fatal. Em poucos dias, várias histórias de crimes e ditos foram apontadas tendo como protagonista o jovem pistoleiro, cuja captura virou “questão de honra” para as Polícias do Ceará e do Rio Grande do Norte.
Conforme a professora Eni Orlandi, coordenadora do laboratório da estudos urbanos da Universidade de Campinas (Unicamp), que estudou sobre os boatos e falou com a reportagem por e-mail, “o boato é uma arma tanto para a dominação como para a resistência. Tecnicamente, ele tem a ver com a relação – sempre incompleta e em movimento – do fato com a linguagem. E tem a ver, assim, com a tal ‘objetividade’, tão cara à mídia, à opinião pública, ao cientista. O que o boato mostra, no discurso social, disponível para a coletividade pública, é que ‘onde há fumaça há fogo’. Estamos assim lidando na margem tênue entre o que se diz e o que não se diz, com aquilo que vem por tradição, o saber ancestral, proverbial: ‘Todo boato tem um fundo de verdade’”, comentou a professora de São Paulo.
Fato ou inventado que vira boato, boato que vira notícia, no meio de tantas versões e histórias, o jornalista pernambucano Homero Fonseca escreveu “Viagem ao Planeta dos Boatos”, sobre sequências de narrativas nordestinas não comprovadas, mas muito bem difundidas sertão a dentro. Ele analisa como surge o boato, com que intenção. “Uma verdade que não se materializou ou uma mentira palpável?”, tergiversa. Na obra, Fonseca parte de uma situação de pânico coletivo ocorrido em Recife, no ano de 1975, pelo boato generalizado segundo o qual a represa de Tapacurá havia estourado e as águas inundariam a cidade. O autor recorre a estudiosos desse fenômeno, resgata boatos na história da humanidade, discute as responsabilidades do poder público e dos meios de comunicação.
No Ceará, a notícia dos tremores de terra no Açude Castanhão, em 2007, e os subsequentes boatos de seu arrombamento levaram a duas situações de diferentes, mas convergentes. Estudos publicados no livro “A face oculta da Barragem do Castanhão”, engenheiros apontam os riscos da construção do açude no lugar, onde existe uma falha geológica, e as lendas rurais de que um grande dragão adormecido mora embaixo da região, com corpo e cauda horripilantes.
SAIBA MAIS
Credibilidade
O boato é uma forma de linguagem que trabalha fortemente o mecanismo da argumentação sem explicitá-la. Vale a credibilidade de quem está falando, mesmo que não tenha sido o autor da mensagem. Como um amigo contar o boato a outro, ouvido de uma terceira pessoa, cuja confiabilidade não é mais questionada
Assuntos
Os temas mais comuns que originam boatos são as questões de morte, catástrofes, conspiração, mexem com as emoções, gerando reações de ansiedade, que costumam colaborar para a propagação dos boatos
Expectativa
A pessoa que recebeu a mensagem tem a necessidade de falar, de contar a mensagem, na expectativa de que outro a desminta. Em Limoeiro, os comunicadores de imprensa eram abordados pela população que retrucava sobre o arrombamento do açude
Necessidade
Estudos constataram que quanto mais as pessoas se assustam com o boato mais o apregoam. O móvel originário do boato é a necessidade, a busca de informação, daí a ânsia por informações nos casos de supostas catástrofes ou conspirações
HISTÓRIA
“Fernando da Gata” foi um ícone popular
Limoeiro do Norte. A fé não costumava falhar para um bandido tão ligeiro quanto gato. Agia mais pela esperteza que pela truculência. Desonrou moça de família, roubou, assaltou na região jaguaribana, e dizia que a Polícia não ficava com ele na cadeia por duas noites. É Fernando Soares Pereira, o “Fernando da Gata”, que virou notícia nacional. O homem era caçado pelos quatro cantos da cidade. Quando ainda estava em Russas, os boatos eram de que Fernando da Gata nunca ficava preso. Até ia, levado pela Polícia, mas como num passe de mágica sumia. A história é repassada em Russas para as novas gerações: quando ia preso, Fernando da Gata fazia uma oração, juntava as mãos ou algo parecido, e desaparecia, para indignação da Polícia.
Diário do Nordeste
Para fazê-lo se render, policiais prendiam a mãe ou a esposa do meliante, que se entregava na cadeia, onde, conta-se, não passava um dia enjaulado. Quando era preso virava atração pública. A Polícia o exibia na sacada do prédio onde funcionava a cadeia pública e hoje é o Batalhão de Polícia Militar. A multidão se juntava na frente do prédio, para conferir se ele realmente estava preso.
Fernando da Gata foi baleado por policiais em Santa Rita do Sapucaí (MG). O corpo foi trazido de avião para Fortaleza e recebido por diversos curiosos, sendo sepultado em Russas – ainda hoje o túmulo é visitado por curiosos. O seu sepultamento foi noticiado pela televisão e acompanhado pela Rádio Progresso de Russas, que anunciava as caravanas em paus-de-arara para assistir ao seu sepultamento. Pessoas dormiram no portão do cemitério para ver o seu enterro. Os boatos do sumiço de Fernando da Gata foram além de sua morte. Ainda hoje comenta-se que ele esteja vivo, e até teria voltado para a cidade natal jaguaribana.
Outros dizem que o sumiço, mediante orações e “palavras mágicas” revelavam seu traço sobrenatural. Homem de fé e poder, segundo legitimado não pela ciência, mas pelo dito e não-dito popular. A história de Fernando da Gata, o jovem que, aos 21 anos, usava nome falso para entrar nas mansões e roubar objetos valiosos e atacar as moças bonitas, foi narrada na teledramaturgia, numa minissérie da TV Globo que levava seu nome e tinha, no papel do bandido, o ator José Dumont. Escrita pelo então diretor do Globo Repórter, Fernando Pacheco, foi exibida em fevereiro de 1983.
Ainda na região jaguaribana, no início dos anos 90 conta-se que todas as noites uma mulher diferente era visitada na calada da noite por um maníaco estuprador, em Limoeiro do Norte. Chegava em silêncio nas casas, furando as fechaduras com uma pua — ponta aguda — de marceneiro, recebendo o apelido de “Homem de Pua”. Muitas mulheres dormiam com facas de mesa ao lado da cama, e trocaram portas de madeira por portões de ferro, imperfuráveis à pua. Quando o dito “Homem da Pua” foi preso, a população não sossegou, pois novas perfurações em portas eram encontradas, dando a entender que havia mais de um homem da pua rondando pela comunidade e deixando as pessoas cada vez mais aflitas.
Freqüentemente, a reportagem no Interior é levada a filtrar informações, algumas corriqueiras tratando de boatos. Recorre-se a fontes oficiais, que legitimam ou não a informação. Muitos casos ocorrem justamente no período chuvoso, quando sucessão de fenômenos naturais, notadamente as tempestades, provocam estragos em cidades. O boato gera tamanha força que, em casos de supostas catástrofes, a informação oficial que refute com provas é desacreditada por parte da população, caso das pessoas que ainda crêem que exista uma rachadura no Castanhão, e que os riscos de arrombamento serão maiores quando este chegar à cota máxima. É o medo da profecia de que o sertão vai virar mar seja concretizada de uma vez.
Quando uma chuva de granizo quebrou o telhado de uma casa no município de Jaguaribara, em 2008, para muitos foi o sinal de que as pedras também atingiriam a parede do Castanhão. Vê-se que depois da explosão no céu de Quixadá, da aparição de Objetos Voadores Não Identificados (OVNIs), o arrombamento do maior açude do Ceará é prenunciado cheio de temores e expectativas pelos boateiros.
Melquíades Júnior
Colaborador
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José Clodualdo comentou:
Em relação a história e não estória do Fernando da gata, digo que conheço um pouco dessa situação. Na época eu deveria ter uns 12 a 13 anos e presenciei tudo que está escrito pelo Homero, pois naquela época que o Fernando era vivo, todos da cidade de Russas o temiam, devido a várias situações que levavam a sua autoria. Desde roubos em residência a "estupros" em algumas moças da cidade. Cheguei a vê-lo na sacada do batalhão de polícia (2 BPM) mostrado pela PM como um troféu mesmo. Pois ele tinha uma fama que ninguém o pegava devido a suas possíveis "orações". Na realidade muitos ainda não acreditam que ele realmenteu morreu e que esteja vivo. Portanto fica a dúvida. Mas concordo em número, gênero e grau com as palavras do Homero.
Atualmente moro em Manaus e estou com 37 anos e sou filho natural dessa maravilhosa cidade de Russas-Ce.
Abraços a todos.
ALBERTO FERREIRA ALEBRANTE comentou:
Acho interresante estas publicações, pois elevam e contam as historias e acontecimentos de um povo. Reviver acontecimentos é um enriquecimento da cultura.
Comentário publicado dia 22/03/2010, às 17:16Airton Chips comentou:
Caro Homero,
Desconcheço os fatos,mitos e boatos sobre Fernando da Gata na sua Russas natal. Conheço um pouco de sua passagem por São Paulo,atraves dos jornais televisivos. Conheço tudo sobre sua vida desde que ele chegou à Pouso Alegre, foi para Mariana, voltou para Pouso Alegre, escapou do cerco e fugiu para morrer dois dias depois na margens do rio Sapucaí em Santa Rita do Sapucaí. Ele morreu de verdade, com apenas um tiro de 38 no peito, desferido por um policial militar do meio ambiente, um dos mais de 30 que o caçavam desde que ele fugiu do cerco em Pouso Alegre.Metade do seu velorio aconteceu na delegacia de Pouso Alegre onde eu estava de plantão. Com a invasão da população enfurecida, tivemos que retirar seu caixão pelos fundos e sepultá-lo escondido. Semanas depois seu corpo foi exumado para colheita de impressoes digitais e meses depois o que sobrou de seus ossos foram levados para Russas, por conta do governo cearense. Ele fez diversas vitimas de roubo e estupro em minha cidade. Semana que vem estarei publicando com detalhes a estoria dos seus ultimos 10 dias de vida.