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09/01/2010 - 18h02

Dalva de OLiveira, normalistas e pecados

Fotografia ilustrativa

Dalva, ícone de uma época

A recente minissérie Dalva e Herivelto – Uma canção de amor, na Rede Globo, ficcionalizando a tumultuada relação entre a cantora Dalva de Oliveira e seu marido, trazia como um dos temas musicais a canção Pensando em Ti, de 1957, composta por Herivelto Martins e David Nasser.

A letra é a seguinte:

“Eu amanheço
pensando em ti
Eu anoiteço
pensando em ti
Eu não te esqueço
É dia e noite
pensando em ti.

Eu vejo a vida
pela luz dos olhos teus
Me deixe ao menos
Por favor pensar em Deus.

Nos cigarros que eu fumo
Te vejo nas espirais.
Nos livros que eu tento ler
Em cada frase tu estais.
Nas orações que eu faço
Eu encontro os olhos teus.
Me deixe ao menos
por favor pensar em Deus.”


É uma letra típica daqueles anos, escrita por David Nasser (1917-1980), notório jornalista dos anos 40 e 50, praticante de um jornalismo sem escrúpulos, exímio manipulador de palavras e sentimentos. Nasser incorpora com precisão valores da sociedade brasileira à época.
Para além da linguagem empolada, ao se ouvir hoje a canção percebem-se as enormes mudanças culturais, sociais etc. etc. pelas quais o Brasil passou nos últimos 50 anos.

A fixação romântica - “dia e noite pensando em ti” – está fora de moda, em tempos em que a música produzida pela indústria cultural é dominada pelo funk, axé, brega e que tais, privilegia dançarinas de pernas torneadas nos palcos e traz letras tratando as mulheres por “cachorras” (com as garotas na platéia endossando gostosamente, a revelar um tipo de consenso).
Fumar é politicamente incorreto e ler livros está fora de cogitação da maioria do público. Não sei se as pessoas continuam orando com fervor (mas sem dúvida o catolicismo perdeu drasticamente grande parte do poder de influenciar a vida cotidiana das pessoas).
Quanto ao apelo final - “me deixe ao menos por favor pensar em Deus” - soa tão anacrônico quanto jejuar na semana santa ou praticar autoflagelação.

Pensando em Ti, como tantas outras músicas populares, é um documento de época.

Outro exemplo marcante, ao meu ver, é A Normalista, do mesmo David Nasser, em parceria com o flautista Benedito Lacerda, de 1949. Diz a letra, bem conhecida na voz de Nelson Gonçalves:


Normalistas não podiam casar antes do tempo

“Vestida de azul e branco
Trazendo um sorriso franco
No rostinho encantador
Minha linda normalista
Rapidamente conquista
Meu coração sem amor
Eu que trazia fechado
Dentro do peito guardado
Meu coração sofredor
Estou bastante inclinado
A entregá-lo ao cuidado
Daquele brotinho em flor
Mas, a normalista linda
Não pode casar ainda
Só depois que se formar...
Eu estou apaixonado
O pai da moça é zangado
E o remédio é esperar.”

Aqui há uma gama imensa de valores e signos (verbais e visuais) que se transformaram, caíram em desuso ou até foram invertidos, quando se leva em conta as enormes mudanças no papel social da mulher, após duas guerras mundiais, a participação feminina no mercado de trabalho, o alastramento do movimento feminista, a difusão de novas idéias pela mídia e todo o resto.

A normalista era a estudante secundária, geralmente de classe média (a pobreza não tinha acesso à educação, as escolas públicas eram ocupadas pelos filhos da elite), aspirante a ser professora (uma das poucas profissões “reservadas” às mulheres) e, de certo modo, era um símbolo da pureza. Presumivelmente virgens, com suas fardas azuis e brancas, mexiam com o imaginário sexual machista (uma lenda urbana indicava a existência de puteiros exclusivamente de normalistas, em inúmeras cidades país afora).

Nesse contexto, a letra de Nasser acentua vigorosamente esses aspectos (a farda azul e branca, o sorriso encantador no rostinho franco). O protagonista é solteiro (“meu coração sem amor”), porém experiente, “vacinado” (um “coração sofredor”) e almeja entregar seu coração ao “brotinho” para dele cuidar. Mas como a convenção social regula que a menina só deve casar depois de formada e, além disso, como soía acontecer, o pai da moça (provedor e autoridade inconteste do lar) é severo (“zangado”), resta ao galã-conquistador conformar-se ao padrão social (“o remédio é esperar”).

Nada tão defasado perante a realidade de sexo antes dos 15 anos, gravidez precoce, “ficadas e rolos”, falência da autoridade paterna e igualitarismo na iniciativa de namoro entre os dois sexos etc.

Mas o exemplo mais radical, que chega a soar engraçado, é o da letra da canção Argumento, de Adelino Moreira (1918-2002), um português abrasileirado desde tenra idade (a exemplo de Carmem Miranda), autor dos maiores sucessos românticos das décadas de 50 e 60, principalmente na voz do mesmo Nelson Gonçalves.

O tema é um beijo “não autorizado” (vale lembrar que, atualmente, no Carnaval de Olinda, uma das práticas mais comuns é uma espécie de roda de pogo em que rapazes cercam e beijam tudo quanto é garota que passa na rua).

Vamos à letra dessa canção de 1959:

“Sei que esse argumento é muito pobre
mas sabendo quanto és nobre
sei que podes perdoar.

Sei que esse farrapo de desculpa
não redime a minha culpa
mas enfim eu vou tentar.

Sei que fui ousado no meu gesto
não ouvindo teu protesto
para ouvir meu coração

Sei que uma desculpa não redime
meu pecado quase crime
de um beijo sem permissão.

Ma se fui pecador, condeno a Lua
que abandonou a rua
e fugiu com o luar

Pois ela, adivinhando meu desejo
provocou aquele beijo
e assim me fez pecar.

Se impetuoso fui tem compaixão
e em nome do amor
suplico o teu perdão.

Perdão, meu amor, este pecado
sublime impulso de
te haver beijado.”

Tudo isso por um beijo roubado! Sem maiores comentários.

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11 comentários

  1. David Guerra comentou:

    Muito interessante poder ler algo que há tempo já tinha percebido, as musicas que escuto são de interpretes como Augusto Calheiros, Silvio Caldas, Carlos Galhardo, Vicente Celestino, Anisio Silva, Dalva de Oliveira, Carlos Nobre, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Ari Lobo, Carmelia Alves e outros. Tempos em que a musica tinha conteudo, letra, harmônia e respeito aos ouvintes.

    Comentário publicado dia 28/01/2010, às 22:53
  2. lumaria comentou:

    hoje,2010, uma das atrações do big brother brasil será um cara que é travesti e se transformará no programa e um sujeito q apareceu na net se masturbando e mostrando o penis ....é atv transformando tudo numa grande m.....

    Comentário publicado dia 10/01/2010, às 17:42
  3. CRISTIANE MELO comentou:

    A MINISSÉRIE FOI SENSACIONAL, ADOREI VER QUE AS MULHERES DE HOJE NÃO SÃO AS AMÉLIAS DE ANTIGAMENTE, TEMOS NOSSOS TRABALHOS, FILHOS E TANTOS ASSUNTOS CORRIQUEIROS DO DIA DIA QUE DEPENDE DA NOSSA DECISÃO E HOJE A PALAVRA DOS NOSSOS MARIDOS É SIMPLESMENTE SIM SENHORA... TUDO DEPENDE DE SER UMA GRANDE MULHER RESPEITADA E SE ISSO NÃO ACONTECE DEVEMOS NOS AMAR E SEGUIR NOSSA VIDA ADIANTE.PARABÉNS PELA MATÉRIA!!!

    Comentário publicado dia 10/01/2010, às 15:19
  4. eulália comentou:

    ameiiii,vi ,revi o meu passado,minha cidade,meu colegio,minhas alegias e tudo mais,parabens.época do rádio,tempo bom,quem hoje imaginaria viver aquela maneira!
    parabens.

    Comentário publicado dia 10/01/2010, às 15:03
  5. keylla comentou:

    Posso comparar a vida de Dalva de Oliveira com a de tantas mulheres, mesmo nos dias de hoje, que tem jornada dupla, trabalham em casa e fora e ainda tem que aturar as infidelidades do marido, dentro desta sociedade que vive cobrando que a mulher tenha pudor e vergonha, mas do homem nada, onde os maridos de hoje estão perdendo o seu papel fundamental como marido, pai e dono de casa, a reponsabilidade de sustentar hoje está apenas para a mulher. Vamos repensar valores e amar mais.

    Comentário publicado dia 10/01/2010, às 13:46
  6. eduardo pedrosa de albuquerque comentou:

    A questão é que hoje acabou o respeito, as mulheres com esse feminismo perderam a vergonha, querendo se igualar ao homem, porém ao invés disso, cairam na prostituição. A família perdeu para TV, onde se prega violencia, pai apanhando de filho, homoxesualismo e traições, é assimqueé formada o carater dos jovéns, uma certa ocasião meu filho ia sair com amigos, e antes disso como de costume em casa, ele pediu abença, serviu de chacota para os colegas. Nossa sociedade é essa.

    Comentário publicado dia 10/01/2010, às 12:13
  7. Júlio Cezar - Natal RN comentou:

    Sabem, tenho 47 anos, e, lógico, não conhecí a fundo tantos valores do cancioneiro brasileiro, más tive tempo de poder ouvir e apreender (gostando, principalmente)excelentes canções na voz de Nelson Gonçalves,Dalva de Oliveira, Maísa etc, com muita poesia e demonstração de sentimentos e valorização da mulher, frutos de uma época de ouro da música e do rádio, explicitada com elevadíssimo nível de qualidade e conhecimento, nesse blog. Assim, parabenizo ao seu autor (Homero Fonseca)pela clara demonstração de conhecimento da cultura musical do Brasil. Parabéns!! Júlio Cezar (Pernambucano)- Residente em Natal RN

    Comentário publicado dia 10/01/2010, às 10:39
  8. edujolive comentou:

    Você está de parabens, grande matéria. Hoje ja dizem que sou saudozista por ouvir as belas canções de Gonzaguinha, Djavan entre outros que falavam de amor nos conturbados anos pós ditadura. Nasci em 57 ano dos grandes compositores boêmio , e tive a felicidade de crescer ouvindo Nelson, Dalva, Ângela, Calbi, Anisio Silva, Miltinho entre outros isto antes dos dez anos e ate hoje não esqueço. Passei pela pela Jovem Guarda, Bossa Nova, Rock n'Roll,MPB de protesto entre outras coisas moderna, e hoje estou exilado distante das coisas que faziam sentido, obrigado a ouvir estes lixos pobres e podre que corroe os sentimento de quem ama a poesia e a beleza do bom. Hoje minhas filhas não tem a felicidade de conhecer uma boa coisa nova, porque o novo para ela ja é nostalgia pra mim.

    Comentário publicado dia 10/01/2010, às 09:37
  9. Weliton comentou:

    Parabéns pela matéria! Infelizmente e/ou Felizmente a memória do brasileiro ainda precisa ser refrescada e lembrada com análise e texto como descritos acima na matéria. Parabéns!

    Comentário publicado dia 10/01/2010, às 09:03
  10. jorge soares de souza comentou:

    gostaria de receber estas musicas

    Comentário publicado dia 10/01/2010, às 07:47
  11. ELIZANGELA B comentou:

    adoreiiiiiiiiiiiii a matéria sobre dalva de Oliveira , a miniserie expressa a verdade dos tempos de aurea da Rainha do Radioooo..

    Comentário publicado dia 09/01/2010, às 22:26
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